Jornalismo: hora de comemorar ou de refletir?

Antes de começarmos, duas breves observações.

Meus dois leitores sabem que, na imensa maioria das vezes, o blog aparece para levar notícia. Falar sobre jornalismo em si não houve muitas ocasiões. Agora, será uma delas. Acredito que o momento merece.

O ponto 2 é que a conclusão do leitor sobre esse texto pode ser simplificada antes mesmo da leitura propriamente dita. O autor é um jornalista que foi saído recentemente de uma grande redação e está aqui desabafando um pouco de suas mágoas. Pode ser uma conclusão simplista. Mas, enfim, há de se respeitá-la. Se já é esse o conceito inicial, alerto logo que não é preciso continuar até o fim. Aviso que pode parar por aqui e evita-se perda de tempo.

Dito isso, para quem fica, sigamos.

Esta semana, mais precisamente às 19h30m do dia 17 de maio, o jornalismo viveu um momento classificado por muitos como histórico. Saber se isso é 100% correto, só os livros de História vão dizer. Mas o termo não me parece nada exagerado.

As horas que se seguiram após a divulgação do furo do colunista Lauro Jardim no site do jornal O Globo sobre o ex (ops, dei uma de Bonner, foi mal), sobre o presidente Michel Temer foram de êxtase para o jornalismo. Foi hora de comemorar a importância de uma profissão tão castigada nos últimos anos, celebrar o orgulho que esse profissional carrega às vezes escondido no peito. Foi o dia da redenção.

Foi um momento em que cabia desabafar: “Olha aí, essa é a Globo (adoro que por mais que o jornal tente convencer que é O, não adianta, vira sempre A) que você petista tanto critica??? Chupa essa mortadela!!! Fala agora, vai??? Dá crédito para a platinada!! Quero ver!!!”.

Na disseminação de ódio que se perpetua pelas redes sociais, é quase certo que você tenha lido algo do tipo nos últimos dias.

Mas enfim, esqueçamos a raiva e vamos nos concentrar nas comemorações. Nos últimos dois dias, em conversas com pessoas cujas opiniões respeito muito, comecei a ter essa discussão. É só o momento de comemorar o jornalismo? Na minha humilde opinião – e sabendo que o que nos falta hoje em dia é cada vez mais tempo para pensar -, não é hora só disso. Cabe refletir.

Um texto que começou a circular hoje entre jornalistas, de um diretor da gigante da assessoria de imprensa FSB, vibra sobre o quanto o furo histórico representa em termos do negócio jornalismo. Uma notícia em meio digital que catapultou o site do Globo possivelmente a níveis jamais vistos. Talvez o próprio jornal não tivesse se preparado o suficiente, já que não faltaram vezes em que a página saiu do ar.

Ou seja, ainda é preciso ver se isso efetivamente irá, como alguns gostam de dizer, “monetizar” o jornal, que vem, como milhares de outras empresas, sofrendo com a crise. Mas, ao que tudo indica, para o “negócio jornalismo” foi um gol. Decisivo? Difícil ainda saber. Mas um gol importante.

O que queria trazer aqui – se meus dois leitores já não diminuíram para um a essa altura – é um outro lado. Em termos de orgulho da profissão, da investigação jornalística, o furo desta semana é só para comemorarmos? Volto a dizer: acredito servir mais para reflexões. Professores terão prato cheio, mas é bom que essas discussões não fiquem só na academia.

Do ponto de vista prático, o que vimos foi mais um vazamento de partes de uma delação premiada, que desta vez incluía provas mais consistentes, graças a uma apuração extra que envolveu as autoridades do caso e o próprio delator. Ao jornalismo, coube reproduzir e empacotar o material recebido. De forma muito bem feita por sinal. E ponto.

Há um mérito indiscutível de o colunista ter antecipado, ter tido em mãos algo que pode mudar os rumos do país. Com certeza, é de uma satisfação imensa para o próprio jornalista e de consequências muito positivas para a empresa onde trabalha. E de dar inveja a qualquer outro colega.

Não dá para não pensar, porém, no tamanho do poder que nosso país teve esta semana em mãos de um colunista, em mãos de um jornal. O próprio veículo e um concorrente noticiaram que o delator pode ter faturado milhões com transações de câmbio horas antes de a notícia ter sido veiculada.

Mas o leitor pode se questionar: o conteúdo das delações iria ser divulgado de qualquer jeito, certo? Sim, mas um impacto de um vazamento através de uma única fonte, cujo texto já se afirmava uma bomba, pode ser muito diferente de uma divulgação ampla e universal. Há que se refletir sobre isso.

O que quero dizer é que me empolgo pouco com o furo. Ao menos, especificamente neste caso. Pensando não só em termos da nossa profissão, mas no país que queremos daqui para a frente, precisamos lutar é por mais e mais transparência. Só dessa forma é que ficará mais difícil para o sistema corrupto se reorganizar após ser sacudido.

É muito mais importante para o país e, por que não, para a própria profissão a divulgação de íntegras de delações, que mais e mais documentos estejam públicos do que propriamente os vazamentos seletivos. Que deixam o leitor feliz quando não envolvem o “time” para que ele torce. E revoltado, quando envolvem o seu lado da torcida.

O papel da fonte é e será sempre inquestionável. Mas acredito ser muito mais relevante quando serve de pontos de partida para investigações. Quando ela antecipa, de forma seletiva, documentos, gravações, que terão um impacto gigantesco, é preciso ao menos olhar tudo isso com mais reflexão e cautela.

Para o negócio jornalístico da empresa, o que aconteceu às 19h30m do dia 17 definitivamente pode ser algo a ser aplaudido de pé. Para o jornalismo em si, prefiro usar o furo para a reflexão. O que não quer dizer que seja errado comemorar.

Sigamos. Comemorando e refletindo.

 

 

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